
Viver, trabalhar, comprar, cuidar da saúde, educar e divertir-se num raio de 15 minutos?
Esse é o conceito de Cidade dos 15 Minutos, que está em evolução em alguns dos mais importantes estudos de especialistas do novo urbanismo neste começo de século e também em práticas bem-sucedidas. Cidades como Paris, Copenhagen e Melbourne já são pioneiras e projetam que até o ano de 2050 a tendência seja uma realidade em suas comunidades.
O QUE É UMA CIDADE DOS 15 MINUTOS?
O conceito de cidades dos 15 minutos pode ser considerado recente, mas quando direcionamos nosso olhar para a história do planejamento urbano, é perceptível o progresso de diversos paradigmas que embasam essa nova ideia de se viver em comunidades urbanas. O mentor da ideia é o urbanista colombiano – radicado em
Paris – Carlos Moreno, professor da Universidade Sorbonne. O conceito foi apresentado em 2015, em um encontro das Nações Unidas, em que estavam sendo debatidas as formas de reduzir as emissões de gás carbônico (CO2) e encontrar soluções menos poluentes para reduzir (ou substituir) o tráfego de automóveis movidos a combustíveis fósseis. Nesse encontro, foi possível perceber que o foco ambiental sobre a mobilidade se deslocou para a ideia de proximidade, uma solução mais óbvia e de fácil aplicação com o encurtamento das distâncias que os cidadãos percorrem diariamente.

Pensar em cidades e bairros densos, com diversidade de usos e pessoas e que atendam às necessidades da população, faz parte das ideias inovadoras apresentadas por Jane Jacobs desde 1960. Jane foi uma influente ativista norte-americana, autora do célebre livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”.
Além dela, outros importantes pensadores dos movimentos sociais urbanos surgiram após o movimento Moderno, com novas reflexões e conceitos sobre a urbe em obras de Ebenezer Howard, Clarence Perry, Gordon Cullen e outros. De uma forma bem resumida, Carlos Moreno conseguiu estabelecer o conceito de “cidade dos 15 minutos” como um território urbano onde os seus moradores podem acessar todas as suas necessidades básicas em caminhadas de 15 minutos, sendo possível viver, trabalhar, estudar, ter cuidados médicos e espaços de lazer dentro de um raio confortável de caminhada.
Esse conceito ganhou maior ênfase e se popularizou quando Anne Hidalgo, graduada em Direito, tornou-se prefeita de Paris em 2014. Anne se reelegeu em 2020 e até hoje está no comando da cidade. Sua campanha de reeleição foi baseada na concepção “Paris du Quart d’Heure”. A proposta conquistou os cidadãos parisienses por ser uma ideia resiliente, pois a cidade, assim como o mundo, sofria as consequências causadas pela pandemia da covid-19.
Com a primeira onda dos bloqueios em decorrência da doença, em 2020, a gestão de Anne aproveitou o momento para dar o primeiro passo rumo à Cidade dos 15 Minutos e ampliou o conjunto de ciclofaixas temporárias e o cronograma de fechamento de ruas para garantir mais espaço ao distanciamento social. Hoje, a cidade possui mais de mil quilômetros de rotas cicloviárias, incluindo ciclovias segregadas, ciclofaixas pintadas sobre o pavimento e faixas de ônibus que foram convertidas e, atualmente, são abertas para ciclistas. Paris também focou em transformar estabelecimentos educacionais em centros comunitários para criar bairros mais saudáveis. A medida principal foi a abertura dos pátios de escolas e creches depois do horário comercial e nos finais de semana, para oferecer aos moradores espaços públicos de lazer.
A medida foi complementada por um programa de pedestrianização (ruas livres de carros) de vias escolares com o objetivo de incentivar meios de transporte seguros e não motorizados nos deslocamentos até a escola. Matthieu Cornet, morador do 18º distrito em Paris e pai de três filhos, contou sobre como aproveita comodidades importantes próximas de sua casa, como lojas, espaços verdes e de lazer, piscina e outros serviços públicos. “É por meio do projeto Cidade dos 15 Minutos que podemos usufruir essa proximidade com os serviços que nos rodeiam. É uma grande vantagem quando você vive na cidade”.
O desenvolvimento urbano focado nos moradores tem provocado mudanças na forma como a cidade é administrada.
Novas medidas devolvem determinados aspectos e decisões políticas aos distritos municipais e suas subprefeituras. Paris criou oportunidades de participação para que os moradores de todos os distritos possam contribuir com o planejamento na escala dos bairros e obter melhorias como novos espaços verdes, embelezamento do ambiente urbano, mobiliário público e infraestruturas de micromobilidade. Em 2021, a cidade também disponibilizou um orçamento participativo de 75 milhões de euros que os moradores podem distribuir entre os projetos a partir de votações. A empreitada de Anna Hildago para concretizar a Cidade dos 15 Minutos depois de uma pandemia traumática chamou a atenção de prefeitos, prefeitas e outras lideranças urbanas em todo o mundo como um exemplo de recuperação pós-pandêmica. O conceito foi adotado de diferentes formas por muitas cidades, como Melbourne (Austrália), Copenhagen (Dinamarca), Amsterdam (Holanda), Xangai (China), Portland (Estados Unidos), Toronto (Canadá), entre outras.
No coração do projeto para Paris, as escolas estão organizadas como “capitais”, ou seja, centros dos respectivos distritos. Para isso, alguns pátios escolares estão sendo convertidos em parques, aptos a serem também utilizados para outras atividades após as aulas e nos fins de semana. Além disso, metade das 140 mil vagas de estacionamento da capital serão redesenhadas e convertidas em espaços verdes, playgrounds, áreas para interação entre vizinhos ou vagas para bicicletas.
Até 2026, a meta é que todas as ruas da capital francesa sejam atraentes para ciclistas.
O QUE ACONTECEU EM PARIS?
• O bairro é a célula da vida urbana.
• Tem mais de 1.000 km dedicados a bicicletas.
• O uso do carro diminuiu 46%.
• Devolução das ruas aos cidadãos.
• As escolas foram abertas ao público, à noite e nos fins de semana, tornando-se espaços de reunião e lazer.
• Criação de 100 hectares dedicados à agricultura urbana, com hortas comunitárias.
• A Câmara de Paris comprou mais de 62 mil lojas privadas que serão destinadas ao comércio local e ao lazer.

No distrito de Nordhavnen, a ideia da Cidade dos 15 Minutos tem frutificado. Com a integração de metrô, bicicletas e caminhadas, tudo pode ser alcançado em 5 minutos no distrito. A área será servida por uma via elevada de metrô e uma rede de bicicletas que criarão uma artéria verde na cidade. O objetivo é que os residentes façam mais de 50% de suas viagens a pé, de bicicleta, de transporte público ou de carona. Atualmente, 40% a 50% das viagens diárias de seus residentes são feitas por um meio de transporte diferente de seus veículos tradicionais.

Em Melbourne, o governo local apresentou o programa piloto de bairro de 20 minutos ainda em 2018. A escolha de 20 minutos aconteceu porque uma pesquisa mostrou que este é o tempo máximo que as pessoas estão dispostas a caminhar para acessar as necessidades diárias localmente. Isso representa uma caminhada de 8 mil metros de casa até um destino e vice-versa. Em muitos locais, o ciclismo e a caminhada foram promovidos e até mesmo novas ciclovias foram criadas e estão em processo de expansão pela cidade.
Melbourne é a cidade de mais rápido crescimento na Austrália, com uma previsão de aumento da população de 2,9 milhões até 2051 (atualmente, a população de Melbourne é de pouco menos de 4,9 milhões). O crescimento populacional esperado, juntamente com as circunstâncias variáveis que as alterações climáticas trazem, exigiu um princípio organizador para preparar Melbourne para o futuro. Esse princípio é o bairro de 20 minutos.
Para reduzir os impactos desse crescimento populacional, foi desenvolvido o Melbourne Plan, criado para gerir esta trajetória de crescimento, assegurando infraestruturas comunitárias, habitação, fornecendo transportes públicos e, mais importante ainda, satisfazendo as necessidades de uma cidade em crescimento. Além disso, os planejadores da cidade estão considerando as circunstâncias de mudança que advêm do fato de Melbourne ser uma cidade costeira, a fim de conter as inevitáveis alterações climáticas.
O gerente do Departamento de Transporte e Planejamento de Melbourne, Marcus Dessewffy, é o Gestor de Projeto que atua para implementar o conceito de bairro de 20 minutos. Para Marcus e a sua equipe, as deslocações a pé são essenciais para criar bairros sustentáveis e habitáveis. “Para nós, a essência dos bairros de 20 minutos é a acessibilidade a pé, a capacidade de as pessoas satisfazerem a maior parte das suas necessidades cotidianas a uma curta distância de casa, como o acesso aos supermercados, mercearias, cafés, parques, bibliotecas e escolas”, explica. Uma vez que a teoria foi desenvolvida como uma alternativa a uma sociedade orientada para o automóvel, a redução da dependência de veículos é frequentemente apresentada como um dos principais benefícios deste conceito de planeamento urbano. De acordo com Dessewffy, as tecnologias emergentes, como os veículos elétricos e autônomos, são promissoras na redução das emissões, mas podem inadvertidamente perpetuar padrões insustentáveis de expansão urbana e requisitos de infraestruturas cada vez maiores. Assim, sublinha que “não podemos confiar nas tecnologias emergentes para resolver todos os nossos problemas de crescimento e sustentabilidade, precisamos, antes, de uma combinação de utilização dos solos e de um ambiente urbano que dê prioridade às deslocações a pé”.
A meta é que, até 2050, Melbourne esteja totalmente inserida no conceito de cidade dos 15 minutos.

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