
O escritório de arquitetura e urbanismo Natureza Urbana é o responsável pelo plano de bairro do DISTRITQ. Ainda na fase final de desenvolvimento, o projeto foi iniciado em 2023 e levou oito meses para a sua criação. O partido do DISTRITQ foi o de criar um conceito de bairro que reúne arquitetura, urbanismo, design e natureza; e como unir todas essas áreas para que as pessoas que irão morar ali tenham o sentimento de pertencimento de viver em um bairro, um lugar de convivência a partir do conceito do design integrado à natureza.
O escritório é formado pelos sócios-fundadores Pedro Lira e Manoela Machado, pelas sócias Júlia Ximenes e Camila Reis, dos associados Breno Pilot e Laís Pimentel, além de 23 colaboradores. O jornal Entre Parênteses fez uma entrevista exclusiva com o arquiteto e urbanista Pedro Lira, sócio-fundador do escritório Natureza Urbana.
Na sequência, alguns dos principais trechos dessa conversa.
Por que o nome do escritório se chama Natureza Urbana? Como você e a Manoela Machado definiram o conceito e o escopo de trabalho do escritório?
Pedro Lira:
Eu e Manoela somos pernambucanos e moramos em Recife até 2005. Decidimos ir para a Espanha e desenvolvemos parte da nossa carreira lá. Trabalhei 11 anos em uma empresa internacional espanhola, um entre os 40 maiores escritórios de arquitetura e urbanismo em escala mundial. Quando voltamos para o Brasil, em 2010, foi com o propósito de abrir uma filial brasileira desse escritório e, o que nos surpreendeu muito, foi a dicotomia que a gente tem, aqui em São Paulo – a cidade escolhida para abrir a filial do escritório espanhol no Brasil – entre o ambiente urbano das nossas cidades, ainda mais na capital paulista, e a natureza que temos muito próxima da cidade, como a Serra do Mar, por exemplo, lugares que tem a distância de apenas meia hora entre a cidade e o contato com o verde, ou mesmo na Zona Sul de São Paulo, que são muito pouco conhecidos pela população. O Brasil é considerado um dos países símbolo da Natureza, considerado como um dos países com maior potencial para o ecoturismo, mas ainda é muito pouco desenvolvido, tanto que nossa relação com a Amazônia é muito distante. Ficamos muito tocados por essa experiência
de estar nesses lugares de natureza. Começamos a trabalhar com parques estaduais e nacionais, isso ainda na empresa espanhola, e ao vivenciar muito a natureza brasileira, pouco conhecida pela maioria da população, percebemos que nós queríamos trabalhar com o meio ambiente. Foi a partir daí, que entendemos a nossa vocação: a de conectar mais as pessoas com a natureza, o ambiente natural com as nossas cidades. Quando decidimos abrir nosso escritório, o nome Natureza Urbana veio justamente desse interesse em promover essa integração entre o ambiente construído, que são as cidades e o ambiente natural e, também, poder estruturar esses lugares naturais brasileiros para que as pessoas possam
conhecer ou conviver com eles. Esse conceito norteia todos os projetos desenvolvidos por nosso escritório que têm masterplans, projetos de parques nacionais, etc. O escopo do nosso trabalho vem desse interesse e dessa vocação que somente um país, como o nosso permite: esse potencial enorme para que sua natureza seja mais conhecida, seja mais vivenciada e faça parte das nossas vidas.


Pedro Lira:
Temos 23 pessoas no escritório atualmente. Eu e Manoela, somos os administradores, que de alguma forma, estabelecemos o direcionamento do escritório, criamos as bases e guiamos esse barco. Júlia e Camila, também como sócias, se incorporaram nos últimos cinco anos, mas com as funções de nos apoiar no desenvolvimento do escritório, na coordenação dos projetos, na organização das equipes e temos ainda, os associados Breno Pilot e Laís Pimentel (que vive e trabalha na Espanha), que contribuem na coordenação dos projetos e das equipes. O escritório é dividido em duas áreas. Um de Planejamento, voltado para os masterplans, consultorias, parcerias públicos privadas (PPPs), planos de grande escala, em todas as etapas de planejamento e o conceito geral, onde estou à frente, junto com a Júlia, o Breno e a Laís. A Manoela e a Camila estão à frente do Departamento de Projetos, desde os primeiros rascunhos até a etapa dos projetos executivos, com a entrega dos projetos completos aos clientes. Fora isso, toda a equipe do escritório colabora com a coordenação dos projetos.
Como vocês se atualizam em Inovação e Conservação da Biodiversidade para aplicar nos projetos do Natureza Urbana?
Pedro Lira:
Trabalhamos sempre em contextos diferentes e em projetos geralmente diferenciados e, com isso, nos habituamos aos diferentes desafios que
cada um exige. Com essas experiências, consequentemente aprendemos um pouquinho a cada novo projeto. Uma coisa importante é que não gostamos de repetição. Por exemplo, têm alguns escritórios de arquitetura, que por imposição do mercado, acabam desenvolvendo processos repetitivos. Então nesse contexto
de atualização, os nossos projetos são multidisciplinares e envolvem sempre um
olhar para a conservação, para o cuidado ambiental, para o entendimento de quais são os elementos naturais daquela determinada área onde estamos atuando e como podemos potencializar tanto a conservação do lugar, a relação das pessoas com essas áreas, então em nossos projetos sempre fazemos essa leitura. O
trabalho multidisciplinar também é importante para nós. São trabalhos que nos complementam, portanto contamos com a colaboração de engenheiros ambientais e parceiros da área ambiental. Essa é outra forma de nos renovar e aprender. Fora isso, estamos sempre envolvidos com clientes e projetos que estão dentro dessa agenda atual de conservação e inovação em conservação da biodiversidade, como projetos ligados às economias verde e azul (termo relacionado com a exploração, preservação e regeneração do ambiente marinho), mudanças climáticas, fomento ao desenvolvimento de turismo e natureza. Os nossos clientes têm
essa agenda também, é uma forma de
estarmos trabalhando nesse setor e, obviamente, sempre buscando ler, se informar, pois a teoria ajuda a prática do nosso trabalho. Ainda nessa linha, é preciso dizer que o Brasil está à frente de muitos países na Agenda Ambiental, portanto é
bom saber que somos pioneiros por estar
com essa agenda no Brasil, um fato que
nosso escritório tem sido conhecido e convidado por clientes de outros países para trabalhar nessa agenda, para ajudar a estruturar ecoturismo e planejamento natural em outros países, com projetos na África e no Oriente Médio.
Pedro Lira:
Atualmente temos projetos em todas as regiões do Brasil, não só em cidades, mas também em lugares que são destinos turísticos e áreas rurais. Fora do Brasil, atualmente temos projetos na África, especificamente em Cabo Verde, e no Oriente Médio, nos Emirados Árabes Unidos.
Qual foi o projeto mais desafiador que o escritório fez e que ficou marcado na história profissional de vocês? Por quê?
Pedro Lira:
Sempre gostamos de novos desafios, então nossos projetos sempre são desafiadores, mas para citar alguns, eu falaria dos projetos que são
executados em cidades: o desafio de trabalhar em um ambiente que tem população, que tem situações sociais de degradação complexas, que o projeto precisa ajudar a reestruturar, que tem restrições de orçamento, além de lidar com a agenda política local. Então, pensando nesse âmbito, tem o projeto de revitalização da
orla de São Luís, no Maranhão, com o Terminal e Parque Urbano. Foi um projeto bastante desafiador, porque tinha uma região equivalente a Cracolândia de São Paulo, ocupados por dependentes químicos em situação de rua, então criamos uma frente de trabalho social, precisou endereçar isso no projeto e trazer soluções que não estavam previstas no projeto original, mas
o resultado foi bastante positivo, levando em conta todos os condicionantes e restrições de órgãos governamentais. Outro projeto que foi desafiador e, que ainda está em obra, é a requalificação da área central de Maringá, o Eixo Monumental de Maringá. Requalificar o eixo central de uma cidade de 500 mil habitantes, que
envolve uma série de equipamentos e as verificações do entorno desse eixo é de uma complexidade muito grande, tanto que o projeto levou um pouco mais de tempo que o habitual pela dificuldade que envolve. Para terminar, na escala de planejamento, eu falaria da estruturação da concessão do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, que foi desafiador em princípio, pois precisávamos absorver todas as características únicas daquele lugar. Outro desafio é trabalhar fora do Brasil, que tem sido uma constante, é desafiador, mas gratificante.


Pedro Lira:
Nesse ponto, infelizmente no Brasil, é desafiador, porque muitas vezes lidamos com orçamentos muito baixos, não só públicos, mas também
em projetos privados. Então, muitas vezes não existe uma total liberdade na seleção dos materiais apropriados e precisamos ser criativos. Nós acreditamos muito no low tech, projetos que utilizam baixa tecnologia, então pensamos em
soluções de baixo impacto e que sejam fáceis de implementação, que sejam de baixo custo e o uso de materiais disponíveis no local, mas também temos utilizado algumas soluções que o mercado
oferece, como por exemplo, para edificações, madeiras laminadas e pré-fabricadas, que usamos em nossos projetos e pretendemos usar mais à medida que se tornem mais viáveis no mercado local, mas a prioridade sempre é olhar para o
que está disponível na região.
O escritório já acumula diversos prêmios desde a sua fundação em 2012. Quais deles são os mais
significativos e considerados importantes por vocês?
Pedro Lira:
Todos os prêmios têm a sua importância, desde premiações nacionais como o do IAB, a seleção dos nossos projetos para a Agenda 2030 do
Guia UIA (União Internacional dos Arquitetos), premiações que recebemos na China, na Ásia, no Azerbaijão, onde há um prêmio internacional de hospitalidade que recebemos, também o prêmio de melhor escritório de paisagem da América Latina e, neste ano, fomos selecionados como destaque na América Latina entre os escritórios de arquitetura da paisagem e de edificação.
Pedro Lira:
É essencial esse olhar
para as mudanças climáticas e é essencial ter um olhar para a natureza, entender que esse lugar que a gente ocupa no mundo já foi só natureza, antes e permanece sendo natureza ao lado das concentrações urbanas, ainda que a gente tenha impactado e construído acima dela. Recentemente, essa tragédia no Rio Grande do Sul, as áreas que foram alagadas, que estavam no centro de Porto Alegre foram aterradas, assim
como de outras cidades do Sul, então não é aleatório, temos que entender o ecossistema do local e trabalhar com soluções baseadas de forma mais integrada à natureza, deixando os biomas terem os espaços deles, isso será cada vez mais necessário diante das mudanças climáticas.
Quais seriam os modelos de desenvolvimento urbano integrados com a natureza que estão dando certo?
Pedro Lira:
Acreditamos que é pensarmos em soluções baseadas na natureza para questões como drenagem, principalmente para saber lidar com a água, saber trabalhar para a redução das ilhas de calor, para que seja preservada a vegetação do local; ter áreas sombreadas; promover mobilidade ativa, que além de causar menos impacto de poluentes no ar, também proporciona saúde; promover mais integração com o desenvolvimento local, por isso a ideia do bairro DISTRITQ , da ARQOS, que é bastante bem-vinda, para que as pessoas vivenciem o bairro, fazer as coisas do dia a dia próximas de casa, caminhando ou se locomovendo por bicicletas ou com um sistema de transporte sustentável.
Isso faz toda a diferença, porque quanto mais a gente precisa se deslocar, quanto mais a nossa casa e o trabalho estão distantes mais infraestrutura viária é necessária, esse tipo de deslocamento gera impacto no ambiente, então nós precisamos viver, cada vez menos, como usuários de grandes estruturas.


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